
Pareço um sapo cego dando uma linguada no ar, não vejo o inseto, mas sei que ele está lá. Com você foi tudo diferente, tudo mesmo. De tudo, de todos, e até do que sempre sonhei nos sonhos de menina. Não existe pudores entre nós. Posso lamber sua virilha, sentir seu cheiro e brincar com seu umbigo e com sua barriguinha. Quem sabe descobrir alguma sujeirinha ali no umbigo, um resto de algodão, um resto de comida, um resto de prazer. Eu te amo depois do banho, eu te amo indo trabalhar sujo de mim, eu te amo humano e eu te amo, sobretudo, quando resolve ser meu. Mas sinto saudades, tantas, tantas. Porque hoje você pouco lembra de como já quis ser meu. De como contou as horas pra me ver e de como sentiu saudade no final de semana ou numa viagem a trabalho. Eu sinto falta desse você. Mas que tolice a minha te falar isso, você nem sequer se lembra desse “você”. Também sinto saudades de respirar o mais profundo possível perto de sua nuca. E descobrir novidades sem nome e sem solução. Sinto saudades de me perder tentando entender de que tanto você sorria, de que tanto você brilhava, de que tanto você se perdia e se escondia. Se escondia de mim, de nós e principalmente de você.
Peço licença a minha vontade tão feia e tão infinita de te desamar, para te amar só mais uma vez. Quero te amar sozinha aqui, no meu lugar novo, em minha quase nova vida. Quero esquecer todo o nada que você representa na vida real e dar contorno aos desenhos que não saem da minha cabeça (eu, você, suas bebês e um outro bebê, nosso). Nunca entendi seu coração, nunca entendi seus olhos, nunca entendi seus descasos e falta de demonstração de sentimento, mas só por hoje queria poder lamber sua respiração para que ela permanecesse mais, pesasse mais. Queria que sua respiração ficasse aqui, nesse apartamento, entre essas paredes. Ficasse em mim.
É libertador esquecer meu desejo de vingança, a vontade que tenho de explodir sua vida, o vício que tenho de passar mil vezes por dia, em pensamento, ao seu lado. E pisar em cima da sua inexistência e liberdade. Chega disso, só pelo tempo em que durarem estas letras e a música que coloco para reviver você, vou te amar mais esta vez. Vou me enganar mais uma vez, fingindo que te amo às vezes, como se não te amasse sempre.
Eu nunca aceitei o teu pouco sentimento, desculpa. Eu sempre quis entender porque você não tinha tanta loucura, tanta emoção, como naqueles primeiros meses. Eu nunca entendi como podia ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia por completo, não me planejava, não me findava. Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. Ainda assim, há meses estou me arrastando, mesmo estando tudo morto demais, mesmo você tendo morrido pro amor e pra verdade que deve haver no amor. Isso tudo é exato e triste demais. Até a mentira começou a ter lugar em suas palavras, poxa. Aquelas mesmas palavras que eu vislumbrava sempre como incontestavelmente honestas. Pensar isso faz com que eu sinta sua falta como se tivesse perdido meu braço direito. Não o atual você, e sim o antigo, aquele que me queria muito... Mas poxa, vivi sem você vinte e quatro anos, porque agora essa frescura toda? Amor, meu caro. Amor. Caro amor.
Esse amor periférico, ainda que não me deixe descoberto o peito, me descobre os buracos. Não são de suas palavras que sinto falta. Elas já inexistem há tanto tempo. Não é da sua voz meio rouca e nem dos seus sermões durante o almoço; também não sinto falta de ver seus olhos implorarem por menos sentimento. Não é, tampouco, do seu abraço. Sua presença sempre deixou lacunas e friagens que zumbiam macabramente entre tantas frestas sem encaixe. Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.
Sinto falta mesmo, para maior desespero e inconformismo do meu coração metido a profundo, de lamber seus lábios, se sentir o cheirinho, brincar com sua barriga, cuidar do elefantinho, respirar sua nuca. Engolir nós dois, me rasgando pra você e me fazendo tua, unicamente tua. Porque você nunca se deu pra mim? Porque, neném? Porque?
Sabe o que foi você na minha vida? Um tapa na cara. Foi a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.
Simplesmente isso. Você, uma pessoa fria, sem poesia, sem dor, sem cores pro amor, sem crença na verdade, sem alma para agüentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o tempo parasse. Você, a pessoa que tantas vezes passou no corredor e me levou embora, e foi tão responsável por tantas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza.
Sinto falta da raiva, disfarçada em desprezo, que você tinha em nunca me fazer feliz, sinto falta da certeza de que tudo estava errado, mas do corpo sem forças para fugir, sinto falta do cheiro de morte que carregávamos enquanto ainda era possível velar seu corpo ao meu lado, sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava te ver em todas as viaturas dessa cidade. Você, do outro lado da rua, passando apressado, no celular, com seus ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinta falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, de não dar conta, de não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me reter.
Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de lamber teus lábios, de sentir o cheirinho, brincar com sua barriga, cuidar do elefantinho, respirar sua nuca. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria.
Agora tudo isso esta ficando pra trás, e acho, talvez, que não resistiremos mais um feriado, mais um aniversário, mais um mês, mais um dia quinze, quem sabe...
Ciao.
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